Please note, your browser is out of date.
For a good browsing experience we recommend using the latest version of Chrome, Firefox, Safari, Opera or Internet Explorer.

Longevidade exige planeamento e novas métricas empresariais

SÉRVULO IN THE PRESS 23 Mar 2026 in Eco | Advocatus

“Longevidade das Empresas e das Pessoas” foi o mote da Conferência dinamizada pela SÉRVULO, no dia 17 de abril, com um painel de oradores composto por Céline Abecassis-Moedas, Paulo Câmara, Rita Canas da Silva, Teresa Pala Schwalbach, Joana Pinto Monteiro, Francisco Boavida Salavessa e Sara Ramos

Integrar o tema na estratégia é essencial para a produtividade, inovação e sustentabilidade das organizações, em particular num País que está a envelhecer rapidamente.

Portugal está a envelhecer a um ritmo que já não permite ‘assobiar para o lado’. Hoje, o país “é um dos mais envelhecidos da União Europeia”, lembra Rita Canas da Silva, com 192 idosos por cada 100 jovens em 2024, número que era apenas de 147 no ano 2000. Uma tendência que é, contudo, global, como reforça a advogada e sócia de Laboral na SÉRVULO, e uma das oradoras na conferência “Longevidade das Empresas e das Pessoas”, organizada por aquela sociedade de advogados com o objetivo de colocar no debate económico o impacto do envelhecimento na gestão do trabalho, das finanças e do património.

Na década de 60 do século XX, metade da população mundial tinha até 28 anos, valor que subiu para 47 anos em 2024, e que se prevê que deverá ultrapassar os 50 em 2040. Para Céline Abecassis-Moedas, que participou igualmente nesta conferência, estes números traduzem uma mudança estrutural profunda, marcada por “duas tendências a acontecer ao mesmo tempo: estamos a viver mais anos, e temos menos filhos”, o que está a transformar tanto o mercado de trabalho como os padrões de consumo.

A Pro-Reitora para a Inovação e Empreendedorismo da Universidade Católica Portuguesa, sublinhou ainda que neste contexto a força laboral tradicional encolhe, enquanto os trabalhadores acima dos 55 anos são o grupo que mais cresce em Portugal, entre 15% e 17% ao ano. E, como acrescentou Paulo Câmara, que participou no mesmo painel temático, este novo contexto exige mais do que ajustes pontuais porque obriga a combater “o primeiro dos desafios, que é a iliteracia”. O sócio de Financeiro & Governance e ESG na SÉRVULO referiu também a importância de criar instrumentos que permitam às empresas antecipar riscos e planear carreiras mais longas num país que envelhece de forma acelerada.

As intervenções da primeira parte da conferência – dedicada ao planeamento da longevidade nas empresas – demonstraram que a longevidade já não é apenas um fenómeno social, mas uma variável estratégica que está a reconfigurar o talento, os mercados e a governação corporativa. Céline Abecassis-Moedas recordou que continuam a existir mitos nas empresas, que é preciso clarificar. A académica sublinhou que os preconceitos sobre produtividade não têm fundamento, lembrando que “a produtividade é mais ou menos estável ao longo do tempo”, e reforçou que equipas intergeracionais são mais inovadoras. No mercado, alertou para a invisibilidade dos consumidores acima dos 50, apesar de representarem a maioria do poder de compra em vários setores.

Rita Canas da Silva trouxe a debate o enquadramento jurídico-laboral, evidenciando a contradição entre a realidade demográfica e práticas empresariais ainda marcadas pelo idadismo. Recordou que, apesar de Portugal ser um dos países mais envelhecidos da União Europeia continua a permitir limites etários injustificados em recrutamento e a conversão automática de contratos por tempo indeterminado em contratos a termo (por 6 meses) quando os trabalhadores perfazem 70 anos (e mesmo que não se encontrem reformados), sendo que a cessação de tais contratos, pelo empregador, não confere sequer direito a compensação aos trabalhadores. Para a advogada, esta abordagem ignora o risco de perda de conhecimento e a necessidade de “criar sistemas de gestão e de retenção de talento de geometria variável em função da idade”. Defendeu modelos laborais flexíveis, formação ajustada ao ciclo de vida e benefícios que respondam, de facto, às necessidades de quem trabalha mais anos e incentivos reais a quem adie a reforma.

Numa dimensão estratégica e regulatória, Paulo Câmara defendeu que a longevidade exige novas métricas empresariais. Sublinhou que é preciso que empresas e indivíduos antecipem transições e riscos e que, para tal, sejam criadas e usadas ferramentas que permitam medir maturidade, mapear impactos e alinhar políticas de reforma, fiscalidade e governação, com o objetivo de “potenciar a criação de valor” num contexto em que carreiras mais longas se tornam norma.

No fundo, os oradores concordam que a longevidade já é um fator estrutural no presente e que as empresas que não a integrem na sua estratégia arriscam-se a perder competitividade.

Investimento e futuro pessoal

A segunda parte da conferência da SÉRVULO, que desde 2017 investe em debates e na partilha de informação e experiências sobre o tema da longevidade, centrou-se numa perspetiva mais individual deste planeamento, nomeadamente nas decisões financeiras e sociais das famílias.

Francisco Boavida Salavessa, sócio de Financeiro & Governance naquela sociedade de advogados, falou sobre a hipoteca inversa, sublinhando que o envelhecimento demográfico ocorre “num contexto de pensões deprimidas”, o que torna urgente criar instrumentos que permitam aos idosos transformar a casa em liquidez sem terem de a vender. Recordou que, ao contrário do crédito tradicional, “o empréstimo não é amortizado durante a vida do contrato”, mas alertou para a falta de regulação. “Não há confiança, e sem confiança não há hipoteca inversa”, acrescentou.

Já Joana Pinto Monteiro, consultora de Imobiliário, Turismo e Urbanismo na SÉRVULO, defendeu que muitos empreendimentos turísticos atuais podem evoluir para modelos residenciais orientados para o bem-estar e a longevidade. Sublinhou ainda que o turismo de bem-estar, que “envolve as pessoas que viajam para manter ou melhorar a saúde pessoal e bem-estar” pode ser integrado num conceito mais abrangente que inclua o turismo médico, e que muitos empreendimentos já dispõem de serviços que podem ser ampliados para incluir nutrição, fisioterapia ou atividades outdoor. Para a consultora, Portugal tem condições para atrair residentes permanentes com este perfil, mas “o desafio é revermos o enquadramento legal para apostar em serviços relacionados com a longevidade”.

A fiscalista Teresa Pala Schwalbach trouxe ao debate a dimensão tributária, lembrando que “a fiscalidade é um motor silencioso que condiciona as decisões” de poupança e investimento ao longo da vida. Defendeu que os incentivos devem ser ajustados às diferentes fases etárias e que Portugal deve olhar para modelos mais robustos, como o “401(k)” norte-americano, por exemplo, onde as contribuições são “praticamente tax-free”. Sublinhou ainda que o país precisa de evoluir na fiscalidade sucessória, hoje limitada. “O planeamento sucessório começa e acaba numa isenção de imposto de selo”.

A encerrar, Sara Ramos, professora associada do ISCTE, alertou para a distância que ainda existe entre a realidade demográfica e a perceção das empresas. Muitas continuam a acreditar que o envelhecimento “não está a acontecer internamente”, apesar de Portugal ser um dos países que mais rapidamente envelhece. A investigadora lembrou que “não envelhecemos todos da mesma forma nem à mesma velocidade” e que a gestão do talento sénior exige adaptar postos de trabalho, planear a transmissão de conhecimento e valorizar o contributo das gerações mais velhas. O desafio, concluiu, é transformar a longevidade numa vantagem competitiva e não num risco adiado.

Saiba mais em Eco | Advocatus.